domingo, 15 de julio de 2018

Portugal tem de cativar a Espanha


A minha primeira ideia foi escrever "Portugal tem de conquistar a Espanha", referindo-me à conquista do seu amor e da sua estima por uma nação irmã; não apenas da parte dos espanhóis que já amam Portugal, mas da parte de TODOS os espanhóis. Porém, optei por evitar a palavra "conquistar", por não querer aludir às desavenças, à violência, às guerras que mancham o nosso passado. É deprimente pensar que nunca poderemos superar colectivamente esse passado, que os espectros da discórdia, da desconfiança e do rancor nos assombrarão para sempre.

Durante séculos os nossos países viveram de costas voltadas um para o outro. Um dos piores momentos para a nossa relação diplomática foi o período das ditaduras fascistas, no qual os sentimentos nacionalistas de ambos os lados geraram uma desconfiança mútua profunda e duradoura. Se tivéssemos entrado em guerra mais uma vez, a perda de vidas humanas teria sido catastrófica. Essa desconfiança tem de durar para sempre? Estaremos, como países, realmente destinados a existir assim para todo o sempre?

Um certo rancor para com a Espanha faz parte da personalidade de cada português, em maior ou menor medida. É um rancor transmitido de geração em geração e visto por alguns espanhóis como uma paranóia sem sentido, algo que não se pode compreender. Mas nós compreendemos. Somos um país que se quis fazer respeitar por si próprio, mostrar o seu próprio valor, sem a ajuda da Espanha. Somos um país pequeno que sempre temeu a assimilação, o desaparecimento da nossa identidade, ao ser eclipsado pelo seu vizinho maior. E a recente instabilidade política na Espanha, a tensão entre o centro e a periferia que aparentemente tantos pretendem apenas perpetuar em vez de acalmar, só veio exacerbar os sentimentos negativos da parte de alguns portugueses para com a Espanha.

Por outro lado, na Espanha parece haver bastante desconhecimento, assim como incompreensão, dos sentimentos portugueses pela Espanha. Por vezes é pior ainda: há espanhóis que pura e simplesmente não gostam de Portugal, que nos desprezam, que não nos conhecem nem querem conhecer. Já disseram que nascemos de uma grande traição ao reino de Leão, como se hoje em dia fossemos nós, os portugueses contemporâneos, quem deve pagar pelas desavenças políticas do passado. A isto respondi que esta atitude não me surpreende nem me choca, uma vez que passámos tanto tempo de costas voltadas uns contra os outros, mas que também não será por essa razão que deixo de falar. Já disseram que somos uma nação "anoréctica", completamente dependente da sua aliança histórica com a Inglaterra, contrastando-nos com a Espanha "grande, unida e livre" que sempre soube fazer frente à Inglaterra e construir o seu próprio império. A isto respondi-lhes com aquilo que outros espanhóis, mais amigos de Portugal, me disseram: "as comparações são odiosas".

Esta é a realidade com que temos de lidar, quer queiramos quer não. A nossa relação diplomática oficial pode ser excelente, mas estes sentimentos ainda existem nas mentes dos povos espanhol e português. O medo de uma maior aproximação ainda persiste. E talvez haja boas razões para isso. Uma vez que existe tanta corrupção na Península Ibérica, uma aproximação directa dos dois países sem qualquer cautela, ou mesmo uma união política, fortaleceria essa corrupção ainda mais, prejudicando-nos tanto a nós como a eles e beneficiando apenas e só os políticos e os magnatas de ambos os lados da fronteira, enquanto o povo continuaria a sofrer a austeridade, a viver na precariedade e a sentir-se desprezado por um sistema político e económico que pura e simplesmente não quer saber das suas preocupações.

A União Ibérica deveria ser para proporcionar melhores vidas a todos os espanhóis e portugueses sem destruir as suas respectivas identidades. Idealismo? Utopia? Se a resposta a estas questões é "sim", então só é sim devido à natureza humana, a nossa propensão natural para a ganância, a avareza e a corrupção. Isso, aparentemente, é um problema cultural dos povos ibéricos, porque há países onde a corrupção parece fazer muito menos estragos... Mas na prática, qualquer passo que se dê no sentido da aproximação deve ter exactamente aquele objectivo, defender a dignidade do povo português e do povo espanhol, mantendo igualmente a preocupação de nunca deixar esse objectivo ser corrompido pela tentação dos ganhos financeiros a curto prazo.

Dir-se-ia, portanto, que as nossas probabilidades de sucesso não são boas.

Quero lá saber. Continuo a fazer a minha vida da melhor forma que a sei viver: a irradiar energias positivas, amor, respeito e irmandade em cada lugar aonde vou. Continuo a acreditar que a realidade é algo que nós podemos mudar se verdadeiramente estivermos dispostos a isso. Eu não cedo à negatividade. Eu não caio no pessimismo. Porque sei qual é a minha missão. A minha missão é ensinar português: para mim, é a maneira ideal de dar a conhecer aquele que na verdade é um povo irmão, digno do amor e do respeito da Espanha. É mostrando-lhes as semelhanças entre as nossas línguas, as nossas ideias, o nosso carácter, as nossas preocupações e as nossas mentalidades que pouco a pouco vou fazendo com que mais e mais espanhóis se apaixonem por Portugal.

E os portugueses poderiam continuar a queixar-se de que os espanhóis ignoram sistematicamente Portugal. Ignoram a questão de Olivença. Ignoram a poluição nos rios. Ignoram o perigo de Almaraz. Ignoram a nossa língua. Ignoram a nossa história. Ignoram a nossa cultura, a nossa música, os nossos livros, tudo menos o nosso futebol - e até nisso nos vêm como nada mais do que um adversário.

Mas insisto, se as pessoas não sabem algo que nós achamos que deveriam saber, então temos de as ensinar. Temos de lhes mostrar e explicar aquilo que não conhecem ou não compreendem. Não podemos simplesmente ficar fechados no nosso ressentimento e queixar-nos daquilo que não é como nós queremos ou a esperar que as coisas mudem milagrosamente. Se queremos que as coisas sejam diferentes, teremos de ser nós próprios a provocar essa mudança. Temos de ser nós, as pessoas que estão no terreno, as que vivem no meio dos outros, a alimentar tanto a sua curiosidade como o seu respeito pelo nosso país.

E insisto... Ou a sociedade espanhola está colectivamente a conspirar e a mentir-me, ou então é mesmo verdade aquilo que eu tenho visto aqui em Madrid: que há cada vez mais espanhóis apaixonados por Portugal, que visitaram Portugal e que adoraram tudo o que descobriram. Que uns poucos poderiam estar a esconder os seus verdadeiros sentimentos e intenções, acredito que sim. Mas tantos assim de uma vez?

Agora, se realmente nos queremos proteger de uma possível assimilação, ou mesmo uma hipotética anexação, creio que a melhor maneira não é continuarmos a isolar-nos e a afastá-los. Os nossos antepassados fizeram o que tinham de fazer no seu tempo. A realidade hoje é outra. Temos tecnologia, temos infraestruturas, temos todas as condições para que as nossas sociedades convivam cada vez mais. A aproximação entre os nossos países, aparentemente, acontecerá quer queiramos quer não. E a minha pergunta é: se um dia os interesses políticos e económicos nos ultrapassarem e dermos por nós demasiado próximos para voltar atrás, qual será nesse momento a atitude dos espanhóis para connosco? Ver-nos-ão verdadeiramente como irmãos, ou ver-nos-ão como um povo inferior que nunca mereceu ser respeitado? Eu prefiro a primeira opção, e a única maneira que sei de contribuir para que eles nos vejam como seus irmãos é que NÓS os tratemos como irmãos e façamos por merecer o mesmo tratamento em troca.

Mais ainda: se chegar esse dia em que os interesses políticos e económicos levam à união política dos nossos países, teremos cada um de nós uma voz para exigir dignidade? Ou tudo será feito atrás das nossas costas? Estaremos nós unidos no nosso sentimento fraternal ibérico para dizer que a união será feita de acordo com a nossa vontade, não com a de quem só quer aproveitar-se tanto do povo português como do povo espanhol, ou continuaremos divididos pelos nossos nacionalismos e, portanto, mais fáceis de controlar?
Somos nós, os portugueses que vivem na Espanha e os espanhóis que vivem em Portugal, quem tem a obrigação de construir tudo aquilo que já devia existir e que ainda não existe: ganhar o respeito dos nossos respectivos anfitriões e apelar às nossas respectivas pátrias para que não continuem a estar de costas voltadas uma para a outra. Foi por essa razão que eu desde o princípio senti que, quanto a mim, devia participar no iberismo: para influenciar a maneira como esta ideia evolui e para garantir que não evolui na direcção errada.

E é por isso que eu todos os dias saio de casa com uma pequena bandeira portuguesa ao peito, para trabalhar, ensinar português, SER português: para servir Portugal com toda a minha paixão. Para insistir nas semelhanças em vez das diferenças. Para insistir que estou a defender Portugal, não a trair Portugal. Para merecer o respeito e a admiração dos nossos irmãos. Para conquistar para Portugal o direito de se fazer ouvir. Para conquistar a Espanha.

                         João Pedro Lázaro Baltazar.
                         Vogal da Plataforma pela Federação Ibérica

miércoles, 20 de junio de 2018

De Moçambique ao Reino Unido a passar por Ayamonte


A nossa simpatizante Sandra Ringler fala da sua experença de vida entre diferentes zonas do mundo Moçambique, Ayamonte na Raia Sul da Península e no Reino Unido onde trabalha com as comunidades portuguesas.
                                                                                                          
A Sandra na entrada do Hotel Polana de Maputo
      


Chamo-me Sandra, nasci em Vila Pery, Moçambique, ainda durante a era colonial.  Devido a situação política do meu país, após a independência de Portugal, a minha família, como milhares de outras, deixou a pátria para atrás.  Por diferentes circunstâncias da vida, fui parar a Ayamonte, uma pequena cidade no sudoeste de Espanha, separada de Portugal pelo rio Guadiana, lugar onde residí por pouco mais de duas décadas.



Viver na outra margem significou estar em contacto com ambas culturas, crescer desfrutando dos dois países. Outro aspecto importante foi, a aprendizagem de uma segunda língua, sendo ainda criança.  Gostaria de recalcar acerca disto pois, devido a semelhança gramatical e léxica do português e do castelhano, foi relativamente fácil, aos dez anos de idade, adquirir uma segunda língua.  Considero isto uma vantagem tremenda para os que vivem em localidades fronteiriças.

Ayamonte- Raia Sul- Andaluzia-Espanha-
O bilinguismo, aumentou o meu potencial a nível acadêmico, desenvolveu bastante a minha personalidade e foi uma base sólida, para dominar outras línguas. De certa maneira, o ser bilingue e absorver uma nova cultura, foi como ter adquirido outra personalidade paralela, algo que abriu-me muitas portas no aspecto professional,  e contribuiu na expansão pessoal.



Anos mais tarde, decidi reiniciar a vida num outro país; as oportunidades não eram muitas tanto em Portugal como em Espanha, levando-me a emigrar para o Reino Unido onde fui bem vinda e valorizada pelas línguas e o conhecimento em diferentes culturas. Trabalhei para a autoridade local, desempenhando várias funções para o departamento de Educação e Crianças, e envolvi-me bastante com comunidades, principalmente com a de língua portuguesa, constituída por milhares de individuos, na cidade onde resido no presente.



Trabalho e trabalhei como professora de línguas extranjeiras; no passado dei aulas para a faculdade local, e impartí cursos de Língua e Cultura para Desenvolvimento Comercial” para algumas universidades no Reino Unido.  Trabalhei também como interprete oficial, para vários departamentos governamentais, e serviços públicos.
Perto da Morada da Sandra atual no Reino Unido

Parte da minha carreira professional é devida aos conhecimentos que absorví de maneira natural no passado; estes, pavimentaram o meu caminho.



Nos últimos anos, estudei Desenvolvimento Internacional e Intervenção em Conflicto e Pós-guerra, e no presente, estou bastante envolvida em política local, no Reino Unido, o que é algo que apaixona-me.  Inclino-me bastante pelas areas de direitos humanos, conflito, e desenvolvimento de sociedades.  Gostaria de contribuir de uma maneira útil, para o futuro da humanidade.



Recentemente vim a conhecer este projeto que está a ser levado a cabo pela Plataforma pela Federação Ibérica, cujo objetivo é lograr uma confederação Ibérica, e sendo as circunstâncias propicias no futuro, chegar a formar uma união federal, respeitando a soberanía de ambos países. 


Pessoalmente, e baseando-me no princípio de pertencer a ambos países, portanto ser Ibérica -   nacional y culturalmente, a ideia de juntar os interesses dos dois países, pareceu-me bastante ambiciosa, mas lógica, pois trabalharía-se pelo benefício dos dois.
Concordo plenamente com o objetivo de incentivar o bilinguismo, igualar os títulos académicos, promover a cultura de ambos países, e trabalhar para o desenvolvimento económico de Portugal e de Espanha; acredito que ambos poderiam beneficiar-se com uma união bem planeiada. 

 Para concluir, e partindo de certa curiosidade por minha parte, realizei um pequeno debate em grupo com  alguns membros da comunidade portuguesa residentes no Reino Unido, e foi surpreendente ouvir várias opiniões acerca do sentimento que partilha-se em relação a Península.  Para um português longe da sua pátria, Espanha chega a ser como a sua segunda pátria; por razões que podem ser histórico-culturais, climatológicas, gastronómicas, ou o conjunto de todas elas.  O estar ausente da terra, faz-lhes apreciar o país vizinho, como um país irmão. 

É a tal saudade!



Sandra Ringler.


lunes, 24 de abril de 2017

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Não ao iberismo? Eu digo não ao ódio.
Resultado de imagen de 25 de abril sempre O 25 de Abril marca o princípio da dolorosa transição do fascismo para a democracia em Portugal. De 1974 a 1986, o meu país viveu um período de incerteza, caracterizado inclusive por alguns ataques bombistas.
 Só com a adesão à União Europeia conseguimos verdadeiramente potenciar a nossa democracia, e só com a abertura da nossa fronteira com a Espanha pudemos (finalmente) começar a descobrir todas as importantes semelhanças que temos com o nosso grande vizinho. Encontro-me, portanto, a reflectir sobre o conceito de "democracia" mais do que para mim é habitual.
Há portugueses que sentem que o 25 de Abril foi a maior tragédia que podia ter acontecido a Portugal. Em que pensam essas pessoas? Estávamos a ganhar a nossa guerra colonial, reinavam a lei e a ordem no nosso país, e íamos transformar-nos numa Suíça, segundo as famosas palavras do antigo primeiro-ministro Marcelo Caetano. Procurando distanciar-me um pouco e pôr as emoções de parte por um momento, consigo reconhecer alguma verdade nas palavras dele. Transformámo-nos num país bastante fraco, comparado com outros. Somos governados por um sistema político que não inspira confiança no povo, que chama "ladrões e gatunos" aos próprios políticos, que pactua com as medidas de austeridade europeias deixando as pessoas mais vulneráveis na miséria, e que não faz o povo sentir-se verdadeiramente orgulhoso do seu país. Pelo contrário; muitos, eu próprio incluido, são obrigados a emigrar. E muitos outros (eu não) dizem abertamente que têm vergonha de serem portugueses. A riqueza económica do nosso país foi reduzida "ao sol, ao turismo e ao servilismo de bandeja", citando Marcelo Caetano. Em muitos aspectos, não somos nem nunca seremos um país verdadeiramente independente.
Dito isto, o fascismo falhou. Porquê? Porque também não era a solução. Porque estava a sufocar o povo. Estava a perseguir as pessoas, a torturá-las pelas suas diferenças ideológicas, e a mandar homens morrer numa guerra ultramarina que eles próprios não desejavam. O fascismo é um sistema opressivo, e portanto insustentável. Mais tarde ou mais cedo, qualquer regime que oprima o seu próprio povo vai falhar. Foi o que aconteceu à União Soviética, à Alemanha Nazi, à Itália de Mussolini, à Roménia de Ceaucescu, à Espanha de Franco, e ao Portugal de Salazar. É por isso que eu não reconheço razão a quem insiste em defender o fascismo.
A conclusão a tirar disto é que as pessoas não são capazes de pensar senão em extremos. Não gostamos de fascismo? Bora para o comunismo! Não gostamos de comunismo? Bora para a anarquia! Não gostamos de anarquia? Bora para... enfim.
Se quem é fascista adora verdadeiramente a sua pátria, então desejaria enviar mais homens para morrer numa guerra longínqua qualquer (seja a nossa colonial ou a do Médio Oriente) contra a sua vontade, suprimir violentamente qualquer oposição ideológica e continuar a explorar desumanamente as colónias? E seriam eles mesmos os que sem hesitar pegariam em armas e arriscariam as próprias vidas pelos seus próprios ideais nas linha da frente? Ou não são suficientemente fanáticos para isso? Eu suspeito que os que mais barulho fazem são os que não lutam e que preferem que outros lutem e morram por eles.
Na realidade creio que os portugueses em geral não são extremistas, e houve inclusive defensores democratas do comunismo, e até mesmo os que propõem um regresso ao fascismo são bastante mais moderados e não desejariam um regime violento como foi o do Estado Novo. Mas também creio que o medo latente de quem não quer o fascismo (ou um comunismo ao estilo de países como a China ou Cuba) seja precisamente esse, o de cairmos no extremismo.
O Donald Trump, o Brexit, a Le Pen, o separatismo onde quer que ele exista, enfim tudo o que seja um movimento político contra o "status quo", é uma manifestação de algo que está errado no sistema do mundo e que precisa de mudar urgentemente. Isso eu consigo compreender perfeitamente. Mas então qual é a alternativa? Vamos para a guerra? Vamos para o ódio? Vamos para a anarquia? Vamos começar a matar toda a gente à nossa volta até fazer valer a nossa perspectiva sobre o mundo? Vamos arrasar a União Europeia? Vamos queimar a Casa Branca? Certo, então e o que é que acontece DEPOIS de tudo isso? Como é que a sociedade se organiza para que não volte a cair na decadência e para que as pessoas não se comecem outra vez a matar umas às outras? Ou é isso o que eles querem, que nos matemos todos uns aos outros?
PAREM com esse discurso de ódio, de guerra, de exclusão do vizinho, de desconfiança sistemática, e de matarmo-nos todos uns aos outros. Vocês, os nacionalistas portugueses, os nacionalistas espanhóis, os nacionalistas catalães, bascos, leoneses, galegos, andaluzes, franceses, britânicos, americanos: PAREM TODOS com esse vosso pseudo-patriotismo belicoso, de uma vez por todas.
Há uma diferença entre patriotismo e nacionalismo. Nacionalismo é "o meu país é o maior e os outros todos não prestam"; patriotismo é "eu amo o meu país e amo também o resto do mundo, e quero viver em harmonia com o mundo inteiro, mas também quero ser respeitado." Eu sou iberista, e o meu patriotismo é tanto por Portugal como pela Ibéria. Rejeito o nacionalismo em qualquer uma das suas formas.
O 25 de Abril acabou com um grande problema e criou outro, levando-nos à beira de nos transformarmos numa ditadura comunista em vez de fascista. E é aqui que eu consigo ver um paralelo entre o meu pensamento e o dos que deploram o 25 de Abril e anseiam por um regresso ao fascismo. Mas a partir daqui as semelhanças acabam; porque eu não quero um sistema no meu país que mata pessoas, oprime o povo e sufoca ideologias (ou etnias). Não quero. Portanto, os que não concordam com o 25 de Abril deverão encontrar outra forma de se exprimir: deverão propor alternativas concretas àquilo que actualmente temos, e deverão parar de espalhar o ódio (ou de escrever coisas que possam ser interpretadas como ódio).
Na França, a Le Pen disse: "o colonialismo deu-nos muito." Há aqui uma falácia. É óbvio que o colonialismo trouxe riquezas inimagináveis ao longo da história a todos os países que partiram à descoberta do mundo. Mas para nós sermos ricos, outros tiveram de ser pobres. Essa é a verdade do colonialismo, que ainda hoje é geralmente ignorada: toda a gente tem um "smartphone" e poucos sabem que alguns dos recursos que são essenciais para produzir esses "smartphones" são produzidos por crianças esfomeadas e esbofeteadas no Ruanda e no Congo. E depois esses recursos vão para a Ásia para a fase de produção. Depois os produtos finais são vendidos no Mundo Ocidental por vendedores que provavelmente prefeririam estar a fazer outra coisa se pudessem, e que ao mesmo tempo se calhar estão a pensar em emigrar. Por isso, para ser minimamente honesta, a Le Pen devia ter dito: "o colonialismo TIROU muito (aos outros, quando lhes roubámos tudo o que tinham)".
Mas o público prefere ignorar estas coisas. Fingir que não é real. Virar a cara para não ver. Ir "passando para baixo" nas redes sociais.
Resultado de imagen de península iberica de noche Falando um pouco de um tema um pouco mais "ligeiro"... No Domingo à tardinha, dois dias antes do 25 de Abril, passei por acaso perto do Bernabéu. O rugido dos fãs era impossível de ignorar, mesmo não sendo eu um aficionado de futebol. Igualmente impossível foi deixar de pensar: "se as pessoas tivessem todo este entusiasmo na política, o mundo seria um lugar muito diferente." Para melhor ou para pior, não sei, mas diferente seria certamente. Portanto não é de admirar que o sistema político do nosso mundo nos queira entretidos a ver futebol, e grandes irmãos, e touradas - ou agarrados aos nossos "smartphones" sino-congoleses. Não é de admirar que eles queiram uma sociedade na qual, quando alguém começa a falar de iberismo, os outros o rotulem como um traidor à pátria. Não é de admirar que eles nos queiram divididos e a queimar as energias uns dos outros com nacionalismos e contra-nacionalismos.
Eu quero uma Ibéria que celebre o carácter cultural único de cada uma das nações da Península Ibérica, não que force a hegemonia de uns sobre os outros. Quero uma Ibéria de irmãos, reconciliados e a trabalhar juntos pelo futuro de todos. Quero uma Ibéria forte e indomável. Quero uma Ibéria de compaixão perante os cidadãos mais vulneráveis, mas sem tolerância para com a corrupção em qualquer uma das suas formas. Quero uma Ibéria onde cada cidadão seja capaz de pensamento crítico, mas sem procurar ofender e magoar o seu vizinho. Quero uma Federação Ibérica que seja um exemplo de democracia e força para o resto do mundo, um novo país que exige (e impõe) respeito ao resto do mundo, que cale as vozes críticas que dizem que não passamos de parasitas que só querem mulheres e vinho, e que nos conhece como porcos (Portugal, Italy, Greece, Spain = PIGS).
Portanto, há bastantes coisas em comum entre o iberismo e os ideais de Abril.
O povo - unido - jamais será vencido!